quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Made in: Capazes

Uma lição de vida para a vida:

"Tinha a cara bolachuda e cheia de sardas. Gordinha e desengonçada, era gozada por todos. O cabelo era tão rebelde que diziam que aquela cor era da fúria de o tentar domar. E para piorar o cenário, os dentes tomavam conta da boca, parecendo querer fugir daquele rosto que se delineava desagradável.
Ninguém gostava dela. Era a Gorda. Aquela que ninguém repara a não ser para achincalhar e deitar abaixo. Não sabiam o nome dela mas todos a conheciam. Não a convidavam nem para os jogos e muito menos para os trabalhos de grupo, por isso ela era imposta pelos professores a grupos que não a queriam.
Chorava sozinha, muito, durante a noite, na solidão do seu quarto, confidenciando-se à almofada. Nem ela a ouvia. Era uma infeliz que se vitimizava cada vez mais. Chorava, adormecia, acordava e voltava ao seu suplício todos os dias. Todos e todos e ainda mais outros que se sucediam, durante muito tempo.
Uma noite não chorou. Sentou-se na cama e pensou que não podia continuar a viver daquela maneira. Tinha que mudar, tomar uma atitude, melhorar a sua vida e moldar o seu destino. Não! Ela sabia que aquele era o último dia em que a atingiam, que a humilhavam e que a tratavam como lixo.
Como é complicado andar na escola e ter de enfrentar hordas de arruaceiros sempre dispostos e prontos a saquearem a nossa alma, a violarem a nossa auto-estima e a pilharem a nossa vida. Os actos mostram quem os pratica e ela sabia que tudo iria mudar.
Colocou uma carapaça de indiferença, usou a sua roupa de simpatia e boa educação e mostrou-se em todo o seu esplendor. Cumprimentava delicadamente todos, mesmo quando a maltratavam. Eram brutos com ela e ela agradecia a atenção dispensada. Atiravam-lhe borrachas e ela devolvia-as dizendo que não eram sua pertença.
Tornou-se uma aluna exemplar. Tinha sempre a matéria estudada e os apontamentos em dia. Fazia resumos que emprestava a quem lhe pedia. O sorriso que, inicialmente, era postiço, começou a ficar verdadeiro e os olhos perceberam que algo se estava a alterar.
Os professores olhavam para ela, admirados com a sua transformação. Sempre muito atenta, muito participativa e com o conhecimento organizado. Era o que se pretendia dela. Estava a florescer num jardim cheio de ervas daninhas.
Começou a ser disputada pelos colegas. Ela fica no meu grupo, não, não, fica no meu. Isso é que era bom, fica no meu! Meninos, então? Porque não a deixam escolher? O ar infeliz e desterrado tinha desaparecido, dando lugar a um semblante simpático e bem disposto.
Perguntavam-lhe como estava, se queria sair com eles, se tinha visto o filme tal ou se tinha planos para o fim-de-semana. O interesse era genuíno e a sua luta tinha dado os frutos necessários.
Olhavam para ela. Viram alguém que nunca tinha reparado. Tanto tempo a exercerem a maldade e a parvoíce tinha-lhes toldado a vista e o bom senso. Era a mesma pessoa ou eles é que tinha mudado?
Aquilo que viam era irreal! A cara era redonda, sim, mas com traços delicados onde as sardas, salpicadas à sorte, lhe davam um ar engraçado e brincalhão. O cabelo era de um ruivo exótico que deslizava em caracóis compridos e teimosos e os dentes tinha encontrado o caminho certo, mostrando-se alinhados e brilhantes.
O corpo estava mais esguio, quase que delineado, e movimentava-se com graciosidade e leveza. Toda ela era a candura que se gostaria de encontrar em qualquer pessoa. Onde é que ela tinha andado aquele tempo todo?
E aquilo que parecia impossível, a mudança da mentalidade, a forma de estar no mundo, naquela escola, aconteceu de modo gradual e inesperado. Foi ela que mudou ou foram os olhos que se afinaram?
Deixou de ser conhecida pela Gorda. Passava a ter identidade própria, a ser ela mesma. Deixou de ser transparente. Nunca mais foi gozada e passou a ser elogiada. Muito. Era uma rapariga, como as outras, adolescente, cheia de incertezas e sonhos, com um futuro que a chamava, atraída pelas tentações e loucuras de quem ainda é muito jovem.
Desculpa ter-te tratado por gorda, desculpas? Perguntavam-lhe muitas vezes. Ela dizia que sim, perdoava tudo. Era a tal mudança que tinha imposto a si, aos outros, à vida que lhe tinha pregado aquela partida no início do ano lectivo.
A história devia ter começado de modo diferente, com o início das aulas e com os colegas a perguntarem Como é que tu te chamas? Eu? Eu sou a Natércia."

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