quinta-feira, 6 de agosto de 2015

MariaCapaz

"Existem momentos na vida em que sentimos uma gigante falta de identificação com o mundo e com a multidão. É como se a natureza nos fosse alheia e todos nos parecessem estar numa sintonia que, simplesmente, não nos atinge. Sentimos que aqueles que nos rodeiam são mais equilibrados, tranquilos e, inclusivamente, mais bonitos e inteligentes que nós.
Esta sensação, que tem tanto de humana como de estranha, é muitas vezes consequência de um processo introspetivo que surge da comparação entre o que não vemos em nós e o que, aparentemente, vemos no outro.
Entre mulheres, estas emoções são recorrentes, até porque nos comparamos constantemente às nossas pares de género. Penso que é uma forma de refletirmos sobre a nossa identidade. Devemos reconhecê-lo sem grandes tabus. É verdade.
Quando somos invadidas por este estado de espírito, como se tivéssemos acabado de beber um cocktail de falta de autoestima e estupidez, a tendência é olharmos ao espelho e encontrarmos no reflexo aquilo que tanto medo temos de ser:
Umas autênticas cromas.
Sim, isso mesmo. Aquelas que sofrem de bullying na escola dos 6 aos 18.
Quando nos apercebemos, é como se uns óculos de fundo de garrafa nos viessem parar à cara, ou como se um estranho nos abrisse a porta do WC, quando ainda estamos sentadas na sanita.
É esta dimensão subjetiva, onde acredito que vamos todas parar, que resolvi trazer para a Maria Capaz. Porque tenho fé  de que somos capazes de ganhar consciência e, sempre que necessário, expulsar este “demónio” do corpo de todas as Marias. O “Demónio da Croma”.
E repare-se, ele pode aparecer a qualquer momento. Estejamos atentas.
Pode surgir quando vamos beber um copo e, à nossa volta, só estão miúdas giras com
20 anos com os seus mini shorts,  quando  já não temos pernas  para aquilo  há uma década, ou quando invejamos  a confiança  da maluca das tatuagens  que dança sem despeito, quando os nossos pés estão colados ao chão e os nossos braços parecem âncoras.
Tende a aparecer, igualmente, quando recebemos um valente Não numa entrevista, ou quando aquele giraço com quem andamos a flirtar há meses, de repente, se apaixona pela nossa amiga. Ninguém merece, eu sei.
Também espreita quando tentamos ser sexy, sem darmos conta que temos um bocado de alface preso entre os dentes, ou quando nos espalhamos no meio da rua e ficamos com a saia no pescoço. Já me aconteceu e não houve quem me ajudasse a levantar do chão.Este demónio faz questão de nos visitar antes de uma reunião importante em que fomos destacadas para fazer a apresentação, mesmo avisando a chefia que temos pânico de falar em público, ou naquela bela segunda-feira em que encontramos, junto à fotocopiadora, o colega que nos segurou a testa depois do jantar de Natal.
Empurra-nos, sem decência, quando queremos muito fazer uma viagem, mas nem dinheiro temos para as portagens até ao Algarve, ou sempre que achamos que podemos comprar aquela peça de roupa e, dois dias depois, estamos a devolvê-la na loja. E, naturalmente, de forma impecável, com etiqueta e a cheirar bem. Nisto, somos prós.
Mas será que faz parte da vida, sempre que consideramos que não estamos à altura, sentirmo-nos assim? Umas completas cromas?
Acredito que calha a todas. Até porque, com a devida distância, chegamos à conclusão de que somos todas Mulheres repletas de defeitos e virtudes. Mas falar é fácil. Já expulsar esta sensação, sempre que a mesma nos possui, nem tanto.
Apesar de termos dois dedos de testa para perceber que todas as mulheres confiantes também cheiram a transpiração num dia de calor, muitas vezes não têm dinheiro para aquelas férias de sonho, são ridicularizadas quando menos esperam e até têm candidíase, num dia realmente muito mau – convenhamos – quando abrimos a porta desta dimensão emocional, temos a certeza de que todas as outras são superiores a nós.
E minutos depois, voltamos à realidade e dizemos baixinho: “Relaxa, a beleza à americana simplesmente não existe”.
O que seria de nós, e das nossas histórias, se fossemos sempre correspondidas? Se nunca tivéssemos medo, ou nos achássemos perfeitas? E, by the way, o que é que isso significa?
Ter as mamas da Monica Bellucci, as pernas da Cameron Diaz, a confiança da Madonna e o cérebro da Marie Curie?
Talvez.
Contudo, o mais certo é acordarmos na caderneta de vez em quando.
Aí, só nos restará dizer: Sai demónio, sai!"

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